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A clínica no ambiente virtual: configurações de campo e experiência

  • Foto do escritor: José Henrique A. Rodrigues
    José Henrique A. Rodrigues
  • há 5 dias
  • 5 min de leitura

Você já parou para pensar que aquele espaço entre você e o terapeuta, durante uma sessão online, é muito mais do que apenas uma tela dividida?


Pode parecer um simples recurso tecnológico, mas, sob a ótica da Gestalt-terapia, o atendimento virtual é, na verdade, a criação de um campo vivo e dinâmico. Muitos questionam a efetividade da terapia online, mas aqui o convite é olhar por outro lado. Afinal, o que é esse tal de "campo"?


Imagine que não somos ilhas isoladas, mas que estamos constantemente conectados e influenciados pelo nosso ambiente, que inclui desde as pessoas ao nosso redor até o espaço físico, as emoções e o momento presente. Esse sistema de relações em constante movimento é o que chamamos de campo: a condição relacional na qual a experiência acontece.


É dentro desse campo que novas formas de experiência e de relação podem emergir.


Na Gestalt-terapia, falar em campo é reconhecer que nenhuma experiência acontece de forma isolada. Tudo o que emerge como emoções, sentidos e modos de contato nasce da relação viva entre pessoa, ambiente, contexto histórico, cultural e, por que não, também tecnológico.


Dessa forma, faz mais sentido compreender o atendimento online como uma configuração dessa rede de relações do que reduzi-lo a classificações simplistas, como bom ou ruim, autêntico ou não autêntico. A partir desse olhar, a pergunta que se coloca não é a de um julgamento, mas de investigação: o que essa forma de encontro produz, que modos de relação ela convoca e quais possibilidades clínicas se abrem a partir dela?


psicoterapia online - acervo gratuito do banco de imagens Brasil com S
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A primeira constatação é a mais óbvia: o atendimento online é o meio através do qual a relação se estabelece, que, por sua vez, não se forma “apesar da tela”, mas através dela. O campo que se configura no ambiente virtual convoca modos específicos de presença, de escuta e de contato.


Mais do que uma simples transposição do consultório físico para o digital, o atendimento online inaugura uma nova cartografia da relação. É um ambiente fértil e complexo, que chama por modos específicos de estar-com-o-outro e abre janelas inesperadas para o trabalho clínico.


É um engano comum achar que, na terapia online, o corpo simplesmente some da conversa. Na verdade, ele apenas se apresenta de outra forma. Como lembrava Laura Perls, uma das fundadoras da Gestalt-terapia, o corpo não é um instrumento que a gente "usa", mas uma parte fundamental do todo que a gente "é". Em outras palavras, não existe um "eu" separado de um "corpo"; a experiência é sempre corporal. Logo, não dá para a pessoa desaparecer no meio do atendimento online (a não ser por problemas técnicos!).


É exatamente isso que observamos no ambiente digital: a mão que gesticula com ênfase, o rosto que se ilumina ou se fecha, a escolha de incluir o ambiente ao redor ou usar um fundo, o cansaço dos olhos. O corpo não desaparece; ele se reconfigura. Sua presença passa a ser mediada pela tela, mas não por isso menos real ou menos significativa.


A conexão continua acontecendo, exigindo sensibilidade clínica para perceber e acolher o que emerge.


Essa configuração do encontro possibilita que aspectos da experiência apareçam de maneira muitas vezes mais direta no campo terapêutico. Não se trata do uso de recursos ou atividades específicas, mas do modo como a própria vida da pessoa atendida passa a fazer parte do encontro. O corpo que escolhe permanecer deitado durante a sessão, o cansaço que se torna visível no modo de se apresentar, a casa ao fundo — organizada ou não —, os sons do ambiente, ou mesmo o compartilhar da tela para fazer uma “caminhada” juntos pelo Google Maps pelas ruas da infância, são exemplos de situações que não são propostas como técnica, mas que emergem da relação.


Nesses momentos, o que se torna clínico não é o recurso em si, mas o desvelamento da experiência tal como ela acontece, permitindo que novos sentidos possam ser reconhecidos e elaborados no encontro.


Essas situações podem favorecer o acesso a dimensões da experiência que, por vezes, não se tornam tão evidentes apenas pela via da conversa, especialmente quando a linguagem verbal se mostra insuficiente. Nesses momentos, o que ganha relevância não é a atividade em si, mas o que se torna possível perceber, sentir e compartilhar a partir dela. Um “fazer junto” que torna visíveis modos de estar, de se implicar e de se relacionar, permitindo que sejam reconhecidos e elaborados no encontro terapêutico


Dessa forma, a nossa participação como gestalt-terapeuta se torna ativa e implicada na forma de estar presente, em consonância com as produções tecnológicas e culturais do campo, tanto em linguagem quanto em prática terapêutica. Não se trata de um observar de longe, mas de sustentar o que acontece, participar das experiências, acompanhar o ritmo da pessoa atendida e se deixar afetar pelo que emerge.


Vale lembrar que também estamos em contato com o virtual, com o corpo, a atenção e a disponibilidade para o encontro. É uma ilusão acreditar que o que acontece “do lado de lá” não acontece do lado de cá.


Enfim, poderíamos enumerar diversas mudanças trazidas pelo atendimento online, bem como as adaptações, regras e novas dinâmicas que se abrem. Já é amplamente reconhecido que ele pode derrubar barreiras geográficas, ampliar o acesso ao cuidado e dialogar com políticas públicas de inclusão digital, além de favorecer pessoas que, por diferentes razões, encontram maior facilidade nesse formato de encontro.


Questões relacionadas aos limites e à autonomia da sessão também vêm sendo colocadas em pauta por diversos artigos: quando desconectar, de que forma, que horas mandar o link — um pouco antes ou na hora exata?


Contudo, talvez mais importante do que isso seja pensar naquilo que essa forma de presença torna possível no campo clínico. Não se trata, portanto, de um “plano B”, como foi muitas vezes visto durante a pandemia e regulamentado pelo Conselho Federal de Psicologia como algo inicialmente temporário, mas como um novo modo de encontro, com suas próprias tessituras e potencialidades.


Vale lembrar que, se a forma mudou, a criatividade clínica se renova e a busca por crescimento permanece e se reinventa.


Se hoje influenciamos e somos influenciados pela tecnologia, encarar o atendimento online como produção do campo parece o óbvio a ser evidenciado. E, como diria Fritz Perls, a Gestalt-terapia trabalha justamente com o óbvio. O essencial permanece o mesmo: é dentro do encontro que outras formas de estar em relação consigo, com o outro e com a própria vida podem emergir.


Referências


Perls, F. S., Hefferline, R. F., & Goodman, P. (1997). Gestalt Therapy: Excitement and growth in the human personality. Gouldsboro, Maine: The Gestalt Journal Press. (Obra original publicada em 1951)


 
 
 

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