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A alteridade somos nós

  • Foto do escritor: Rosimara Reis
    Rosimara Reis
  • há 23 horas
  • 2 min de leitura

Precisamos estar bem para atender?


Fomos ensinados a acreditar que “precisamos estar bem para atender/cuidar do outro”.


Em uma supervisão, fui arrebatada pelo compartilhamento de uma jovem terapeuta acerca do quanto estava sendo pesado lidar com o fato de não estar bem e perceber que isso tem repercutido em seus atendimentos.


Me senti convocada a dar meu testemunho do quanto é importante nos desprendermos da ideia de que é preciso estar bem para acompanhar o outro.


Nós, psicólogos/terapeutas, parecemos esquecer que somos classe trabalhadora.

Precisamos pagar nossas contas mesmo não estando bem; nos vestimos e vamos ao trabalho atravessando nossas tempestades. Claro, é fundamental parar quando isso é possível e necessário, mas algumas travessias das nossas vidas não vão passar amanhã.


Há sofrimentos que podem ser atravessados com uma pausa, uma tarde livre ou uma rede de sustentação. Outros atravessamentos não nos concedem essa possibilidade, especialmente em um mundo onde o descanso e o cuidado seguem sendo distribuídos de forma profundamente desigual.


gestalt-terapia política
Psicoterapia - foto tdo acervo pessoal da Clinica do Indizivel

No ano passado, minha irmã enfrentou um tratamento oncológico. Não, eu não estaria melhor no dia seguinte. Não era uma pausa que devolveria minha atenção, meu humor e minha confiança às condições anteriores.


Foi um ano de tratamento; um ano sendo a terapeuta que foi possível ser vivendo essa realidade. Alguns dias fui menos ativa; outros, mais sensível, insegura, cansada, dispersa... Confesso que, em alguns momentos, quando a palavra “câncer” saltava em uma sessão, meu coração saía pela boca. Senti tantas coisas nessas relações.


Cogitei parar de atender algumas pessoas, mas isso nunca parecia fazer o menor sentido. Era sempre baseado no assombro de algo aparecer e eu não conseguir lidar. Com o tempo, fui entendendo que esse assombro falava do que eu estava vivendo, e simplesmente não havia como retirá-lo: eu convivia com ele.


Você encontra a professora, a diarista, o pintor e a pesquisadora em estados e oscilações os mais variados, mas, quando se trata do psicólogo, parece haver uma obsessão por assepsia que, a meu ver, revela o quanto nossa lógica ainda é manicomial: não suportamos a presença dos afetos, da vulnerabilidade e da desorganização em nós mesmos.


Há algo do nosso tempo no modo de lidar com os afetos que se expressa quando, diante da intensidade emocional de uma criança, rapidamente surge o impulso de regular, explicar ou patologizar aquilo que talvez precisasse, antes de tudo, encontrar escuta e presença.


Oferecemos o lenço, marcamos a consulta, mas não damos morada às nossas humanidades, não nos relacionamos com elas. Parecem nos assustar; queremos limpar, corrigir e organizar rapidamente aquilo que nos desestabiliza.


Dar cidadania às experiências diversas não diz respeito apenas a quem acolhemos.

Essas diferenças são nossas também.


Somos terapeutas atravessados por dores, lutos, exaustões e precariedades, com nossos modos diversos de existir e, muitas vezes, enfrentando o desafio de encontrar reconhecimento e pertencimento em um mundo tão hostil às diferenças.


A alteridade somos nós.

E não precisamos nos limpar para acolher com ética e responsabilidade as pessoas que nos chegam em sofrimento.




 
 
 

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